E se os números estivessem entre nós? Nós os reconheceríamos? Meio que hipoteticamente comecei a criar histórias e sentimentos para numerais. Enfileirados, de um ao nove, entrevistei um a um. Alguns são tão inteiros e racionais, que sozinhos perdem a razão e, irracionalmente, se quebram. Outros são realistas - gostei mais dos “imaginários”. São complexos e complexados. Ordinais, e ordinários quando cardinais. Dizem formar coletivos, mas se dividem por qualquer coisa. Se multiplicam buscando faturamento, mas são fatorados e muitas vezes fracionados. Rabiscamos e apagamos eles, quando na maioria das vezes, o erro foi nosso. Pude perceber que números não calçam só os nossos pés. Eles estão entre nós.
Para você entender, primeiro vou contar a história do número 9, o ”último da fila”, como ele mesmo se rotula.
“Que bom que o senhor lembrou de mim”, ele me dizia após esperar nove entrevistas. Então, começamos a nossa conversa. Ele insistia que deveria ser o nono da fila, pois não contava com o número 0 (o número 9 e o número 0 tiveram uma desavença que irei explicar melhor nas próximas linhas). Puxei uma cadeira para ele.
“Você tem algo a dividir comigo, número 9?”, disse a ele. Olhava em seus olhos e sabia que ele escondia alguma coisa, não revelada pelos outros números.
Logo pude perceber que se tratava de um número defectivo, imperfeito… Devido a sua personalidade ímpar, o número 9 não dividia sua questões com qualquer um. Apenas com o Número 1 e o Número 3, que ambos sendo somados o resultado é menor do que o próprio 9. E isso o deixava incompleto.
“O que você quer saber de mim? Quer me usar nessa sua teoria? Já não chamam isso de “noves fora”?”, me indagou o Número 9, em tom irônico. A sua imperfeição é constantemente usada para verificar erros em operações envolvendo outros números. E isso o trazia a sensação de que “só-serve-para-consertar-erros-dos-outros”.
Por conta de sua solidão, o Número 9 sem qualquer senso de altruísmo, um dia declarou: “não preciso de ninguém. Consigo viver sozinho”, e dessa forma, se elevou aos demais. Se elevou ao quadrado… Tornando todos os que estavam em sua frente, míseros “restos” de uma divisão com um quociente egoísta. Mas não deu muito certo. Ele se tornara um 81 rabugento, infeliz, que por estar tão próximo dos Três Dígitos não se fazia contente. Pude perceber que a forma como viera a ser composto, carregara o karma de sua infelicidade. O Número 1, junto ao 8, possuía postura infeliz, com sua cabeça inclinada para baixo, e o levava a posição de insucesso.
Em outro momento, o Número 9 tentou se fatorar. “Passei a ser 3x3”, ele me conta. “Foi difícil, o que era para ser uma multiplicação passou a ser um símbolo de duelo: era 3 contra 3”. Assim como os números, nós também enfrentamos essa questão, não é? Somos iguais, dividimos as mesmas coisas, temos tudo para dar certo e nos multiplicarmos. Mas interpretamos alguns símbolos de forma equivocada e erramos as contas.
Em uma tentativa desesperada, o Número 9 se dividiu em dois - não matematicamente falando. E, na esperança de ter uma companhia, agora ele se tornara um 0 e 1 (vide imagem). Mas também não deu certo. De personalidades distintas, o “número 0 era muito redondo”, ele dizia. “E o 1? Bem, o 1 a gente já conhece. Se sente mais feliz sozinho”, completou.
Terminei a conversa com Número 9 e o dispensei com um conselho: “Não subtraia os teus restos de felicidade, e sim, some e multiplique as probabilidades positivas, mesmo que irracionais, do teorema complexo que muitas vezes opera a nossa vida.” E, aparentemente, sem entender nada, o Número 9 foi embora. Passei aquela noite toda pensando e investigando o que o Número 9 havia me contado. No dia seguinte, a gente se encontrou novamente.
“Na verdade eu sou de grande importância para cada um deles”, me dizia entusiasmado o Número 9 ao abrir a porta. “Sou a soma de cada um deles. Sou composto pelas somas e subtrações de operações racionais ou irracionais que me levo a ter. Sou o Número 9, mas posso ser 4+5 ou 3+6, não importa. Sou par, sou ímpar, sou o resultado de quem já fui, e a primeira parcela da soma de quem serei. E eu que pensei que o Número 0 fosse um vazio, então, somado ao vazio, continuo sendo eu, com as minhas imperfeições e imparidades”, me disse o Número 9.
“Ontem chorei dízimas periódicas e solucei raízes de felicidades (en)quadradas, que me levaram a um Teorema do Confronto, onde pude perceber a existência do limite desta sucessão de funções irreais que tenho aplicado em minha vida. Chorei! Chorei! Enquanto milímetros se tornavam litros de lágrimas reais, incógnitas eram solucionadas. Subtrai medos, infelicidades, frustrações. Somei novas incógnitas: x,y,z… Não importa, problemas são para ser solucionados”, completou o Número 9.
Números não calçam só os nossos pés. E se eles estivessem entre nós?
Adendo com resoluções:
(O Número 1 e seu “karma” tristonho)
(incompatibilidade numérica: o amor platônico entre o Número 1 e o Número 0)
(se elevar para que?)
(infinitamente infinito)
(Vinicius Covas.)



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